Retratos brasileiros
Pesquisa do Ipea mostra que mulheres negras sofrem mais com desemprego
Joana Wightmann
As mulheres negras são a parcela da população brasileira que mais sofre com o desemprego e os baixos salários. A pesquisa "Retrato das desigualdades de gênero e raça", divulgada ontem pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), revelou que 6,4% dos homens negros estão fora do mercado de trabalho, enquanto, entre as mulheres do mesmo grupo étnico, o percentual é quase o dobro: 12,1%. Por outro lado, entre os brancos, os índices de desemprego entre são de 5,3% (para os homens) e de 9,2% (para as mulheres).
A profissão de empregada doméstica ainda é, no Brasil, o emprego mais comum para a mulher negra. A cada cinco negras, uma é doméstica. Para a mulher branca, essa proporção diminui para uma entre cada oito trabalhadoras com atividade remunerada. Para a pesquisadora Natália Fontoura, do Ipea, os dados do mercado profissional retratam a realidade de desigualdade, que começa em etapas anteriores, como no acesso à educação.
Mulheres discriminadas
"As mulheres em geral tiveram melhora no desempenho nos estudos, mas a discriminação ainda é muito evidente. E a desvalorização no ambiente de trabalho, também", ressalta Natália. O estudo mostra que, desde 1993, as mulheres já superaram os homens em anos de estudo. No entanto, ainda sofrem mais com o desemprego. E, as que estão empregadas, ganham menos que eles.
Natália analisa que o sexo feminino já é excluído, naturalmente, de postos de trabalho tradicionalmente masculinos. Mas, segundo ela, para as negras, a inserção profissional se torna ainda mais difícil, já que há uma tendência de optar pela contratação de mão-de-obra branca.
Serviços diferentes
"Em empregos que lidam com o público, como o de recepcionistas, existe a preferência por mulheres, principalmente brancas. Percebemos que a discriminação é nítida ao observamos, por exemplo, um hotel em alguma capital do Nordeste (onde a maioria da população é negra). Vemos a recepcionista branca, e a faxineira negra", compara Natália.
O estudo mostra, ainda, um fenômeno constatado na população brasileira nos últimos anos: o aumento da proporção de negros. Entre 1993 e 2007, a população negra aumentou de 45,1% para 49,8%, enquanto a de brancos, inversamente, passou de 54,2% para 49,4%. Os pesquisadores observaram que também houve um crescimento na quantidade de pessoas que se identifica como parda.
A guerra dos zuavos baianos
O preconceito e a discriminação racial são os grandes entraves para a entrada dos negros no mercado de trabalho. Para diminuir o abismo de exclusão social que separa os grupos étnicos, a comunidade afro-brasileira busca a implementação de políticas afirmativas. Afinal, importantes entidades e instituições da sociedade ainda não reconhecem a contribuição dos negros na história do país.
Para resgatar, por exemplo, a tradição das quatro companhias de zuavos baianos, unidades militares organizadas pelo Império do Brasil para lutar na Guerra do Paraguai (1864-1870), o jornalista Sionei Ricardo Leão criou um projeto a ser apresentado para as Forças Armadas. Sionei, que coordena a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira), pretende homenagear a memória de milhares de negros livres e escravos que se engajaram no conflito militar do século XIX.
Segundo Sionei Leão, o batalhão zuavo foi inspirado na Guerra da Criméia, região localizada ao sul da atual Ucrânia. Em 1855, foi morto naquele conflito o tenente brasileiro Eduardo Villeneuve, que lutava junto ao 1º Regimento de Zuavos francês. "Dez anos mais tarde, em 1865, ainda um eco dessa celebridade se fazia ouvir no fardamento e designação dos zuavos da Bahia para desafrontar a pátria nos campos do Paraguai", registrou o historiador Paulo de Queiroz Duarte.
No Brasil, a iniciativa teve por intenção atrair novos voluntários, depois de tentativas de alistamento patriótico, seguidas de recrutamento forçado e de promessas de alforria aos escravos feitos soldados. Ex-militar e militante do movimento negro, Sionei Leão pesquisa o tema há mais de dez anos. Em 1995, ganhou um prêmio do Ministério da Cultura, por meio da Fundação Palmares, por conta do documentário Kamba'Racê, que aborda o assunto e a trajetória dos negros no Exército.
Guardas de honra
Nos argumentos do jornalista, os zuavos merecem a mesma atenção de que foram e são objeto os Dragões da Independência, tropa que alterna com o Batalhão do Imperador a guarda do Palácio do Planalto, com a utilização de seus uniformes históricos no serviço. O 1º Regimento de Cavalaria (Dragões da Independência) foi criado por D. João, em 1808. No período que vai de 1822 a 1831, atuou como Imperial Guarda de Honras. "Eles só voltaram a existir por conta do projeto do deputado Gustavo Barroso, aprovado na Câmara dos Deputados, em 1917, e no Senado Federal, em 1927", destaca o jornalista.
Sionei salienta que existe um discurso jocoso na sociedade de que, nesse período, os negros foram "bucha de canhão" no Exército. "Não concordo com essa pregação. Temos que transformá-los em heróis, reconhecer a contribuição e cobrar essa dignidade da instituição", destaca.
O jornalista cita que há várias citações históricas sobre a trajetória dos zuavos, como na obra do general Dionísio Cerqueira, que atuou na Guerra do Paraguai. "Gente forte e brava, em pouco tempo transformou-se em um dos melhores corpos do Exército", escreveu o militar. Ele acrescenta ainda as palavras do último comandante do Exército brasileiro no conflito, Conde D'Eu, para quem os zuavos foram a "mais linda tropa do Exército, com seus oficiais inteiramente a par de todos os pormenores do serviço e orgulhosos de seu batalhão".
"A intenção é convencer o alto comando do Exército, com o apoio de organismos de igualdade racial do Governo Federal, como a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, e da Fundação Cultural Palmares, que esse gesto, ou seja, salientar os zuavos, deve ser entendido pelo teor do reconhecimento, um viés positivo", argumenta Sionei Leão.
João Cândido
Para o jornalista, as Forças Armadas, nesse caso representadas pela Marinha de Guerra, deram um passo muito significativo na relação com a população negra ao concordarem com a anistia do marinheiro João Cândido, herói da Revolta da Chibata, em 1910.
Em novembro deste ano, o ministro de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Edson Santos, inaugurou um busto em homenagem ao almirante negro na Praça XV, no Rio de Janeiro, para comemorar o episódio. "Tenho conversado com vários gestores governamentais e com parlamentares para angariar apoio. A próxima e decisiva etapa fica por conta de sensibilizar o Exército", complementa o jornalista.
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