À margem da cidade
Em algumas regiões do DF, mais da metade da população é negra
Joana Wightmann
Mais da metade da população de cidades do Distrito Federal como Brazlândia, Recanto das Emas, Santa Maria, Ceilândia e Gama é negra. Os dados são do censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que analisou a concentração de afro-descendentes em todo o país. Durante o Fórum de Igualdade Racial, organizado pelo Jornal de Brasília, o assunto tomou conta dos debates, e os participantes discutiram um novo conceito, o do racismo ambiental.
Segundo a jornalista Juliana Nunes, que integra a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira), o uso do termo é recente, mas o preconceito se arrasta por décadas. "Foi comprovado no Mapa Racial do DF que os locais com maior concentração de população negra também são aqueles onde há menor acesso aos serviços públicos, como saúde e educação", enfatizou Juliana durante o evento, realizado no auditório do Centro Universitário UDF.
Periferia
De acordo com o autor do Mapa Racial do DF, o mestre em Planejamento Urbano da Universidade de Brasília (UnB) Marcel Santana, a segregação espacial do ponto de vista étnico ocorre porque as cidades não são acessíveis para todas as classes sociais. A população pobre acaba excluída dos grandes centros urbanos e marginalizada nas periferias. "Fizemos um recorte da segregação racial no DF, e descobrimos que os locais com baixos índices de educação, renda e acesso a equipamentos públicos são os assentamentos que surgiram de forma precária, como a Estrutural e o Varjão", aponta.
Santana destacou, ainda, que há uma inversão da relação entre brancos e negros em áreas ricas e pobres. "No Lago Sul, Norte e no Plano Piloto, observamos uma concentração diferenciada das demais cidades do DF. Nesses locais, cerca de 80% da população é branca, enquanto em áreas como Brazlândia e Itapoã, o índice diminui, e aumenta a concentração de negros", pondera ele.
Para Santana, o grande problema está na falta de políticas públicas capazes de reverter o quadro de segregação das minorias. "Brasília tem uma história peculiar de migrantes, a sua maioria brancos, vindos do Rio de Janeiro para trabalhar no serviço público, e outra parcela de nordestinos e negros, que vieram construir a cidade. A segregação faz parte da evolução histórica da capital e, como não se tem políticas, é difícil melhorar a situação", pondera o pesquisador.
Em outro estudo sobre a realidade brasileira, realizado pelo estudante da UNB Paulo Henrique Santarém, que faz parte do Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD), foi observado que a nova cidade serviu para escoar a mão-de-obra barata, principalmente dos negros, que não encontravam postos de trabalho em regiões como o Nordeste e o Sudeste.
Falta valorizar contribuição
A platéia do fórum foi unânime em reconhecer que falta à sociedade valorizar a importante contribuição dos negros na história, e que é preciso criar mecanismos para desmistificar opiniões que associam o continente africano à miséria e à pobreza. "Só vemos tragédia e nem um pingo da história sobre o que levou aquele povo a tal situação de degradação e exclusão social", comentou a jornalista Jacira Silva.
Para o ministro de Políticas da Igualdade Racial, Édson Santos, além das políticas afirmativas para inclusão, a solução está em investimentos na educação, para que os estudantes conheçam as realidades do país e da África. "A educação brasileira por muito tempo desconsiderou em seus currículos a história e a contribuição da população negra para a construção da nossa nacionalidade. O que limita a identidade do aluno com a escola e, conseqüentemente, com a sociedade", destacou.
Ele relembrou as origens históricas da segregação racial, principalmente no período pós-abolição, no qual a maioria dos escravos livres se transformou em um enorme contingente de trabalhadores desempregados. "Os ex-escravos foram vítimas da discriminação porque não tinham qualquer qualificação profissional para o trabalho na indústria. Por isso, eram preteridos pela indústria nacional em relação à mão-de-obra dos imigrantes", ponderou.
Juventude
O ministro avaliou, porém, que o país vive um importante momento com o aumento das ações voltadas para a promoção da igualdade racial. "O foco está colocado sobre a juventude em situação de risco, que é majoritariamente negra. O quadro social vai da exclusão ao extermínio", considerou. Entre os avanços alcançados nos últimos anos, Santos destacou a criação do Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial, em 1995.
O órgão foi criado para monitorar as ações adotadas por países signatários da Convenção Internacional para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, firmada em 1969. Segundo o ministro, o documento foi fundamental para reconhecer a situação desfavorável da população negra e decisivo para que o Brasil incluísse nas ações políticas do Governo Federal a existência da questão racial.
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