Coluna do AquilesAquiles Rique Reis

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Publicação: Quarta-feira, 11/05/2016
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A sutileza musical de Zé Modesto

O compositor e violonista paulistano Zé Modesto lançou Ao Pé do Ouvido (independente), seu terceiro CD. O repertório, dividido em catorze faixas, tem dezesseis canções – dez só dele e seis com parceiros diversos – e três vinhetas, duas de Zé Modesto e uma de domínio público.

Para gravar, ele concebeu e dirigiu todo o trabalho artístico, que incluiu convidar para participar da festa, dentre outros, Mônica Salmaso (ela não canta, flutua branda e docemente por entre as palavras); Rubi (desde sempre seu timbre de voz me cativou); Sérgio Santos (êta mineirinho que canta bem, sô); Toninho Ferragutti (sua sanfona tem personalidade, daí sua força); Ivan Vilela (violeiro porreta, inventor de causos e cantador de moda); Teco Cardoso (flautas supimpas); Nailor Proveta (o sopro de seu sax é garantia de bom som) e Talita del Collado (eu já conhecia sua bela e delicada voz desde Xiló, o segundo trabalho de Zé Modesto).

Tudo nas orquestrações é sutileza, nada é excessivo: Webster Santos criou o arranjo de “Canavial”, de Zé Modesto, com destaque para a sanfona de Toninho Ferraguti e cantado lindamente por Rubi. Ivan Vilela arranjou “De Vera” (ZM), que tem um belo duo da sua viola com a viola de arco de Fábio Tagliaferri. Zé Modesto, Mário Gil e as Caixeiras do Divino da Família Menezes criaram um lindo arranjo para duas músicas ligadas, “Catarina”, de Gero Camilo, e “Bença Mãe”, de Zé Modesto – interpretadas pelas vozes diferençadas das Caixeiras, é um dos mais belos momentos do CD.

Em Ao Pé do Ouvido, tal como em Xiló, os versos transam com as melodias e com os ritmos, parindo um som impregnado de simplicidade nas canções e arranjos intensamente brasileiros. É um álbum que gira leve, como leve são as cantorias ao pé do fogão a lenha, quando os causos e as modas fluem entre um trago e outro.

Outra qualidade do disco anterior, repetida neste de agora, é o encadeamento bem elaborado do repertório. Mais parece que as músicas formam uma única e indivisível suíte, graças à sua sequência – quando o depois tem sempre a ver com o antes, quando o passado revive no presente e quando a música nos dá chance de embarcarmos numa nave repleta de brasilidades. Também como no segundo, este terceiro álbum nos atiça a busca pela reflexão.

Ao Pé do Ouvido é muito bem cuidado. E introspectivo, pois que Zé Modesto dá um belo jeito de nos apresentar a brasilidade. CD banhado em sentimentos intensos, ele chega para se tornar referência de uma música que tanto vem do sertão quanto da cidade, que tanto é forte como é singela; tanto é do povo, de todos nós, quanto é do mais solitário dos indivíduos que habitam nas cidades.

Em 2009 encerrei o meu comentário sobre Xiló enaltecendo sua graça. Apenas trocando os títulos, transcrevo-o: “Como a vela que carrega o barco e a brisa que vem e leva tudo ao mar e ao ar, Ao Pé do Ouvido embrenha-se pelo fundo e pela superfície. E o canto e a canção não se fazem de rogados, vão.”

 

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

 

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