Coluna do AquilesAquiles Rique Reis

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Publicação: Quarta-feira, 18/05/2016
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Simplesmente genial

Ouvindo Donato Elétrico (Selo SESC SP), o novo CD de João Donato, vem à cabeça a questão: a música de João Donato é simples porque é genial? Ou é genial porque é simples? Ora, um sujeito que tem a generosa capacidade de, mesmo produzindo obras sofisticadas, fazer com que soem simples, é simplesmente genial.

Donato é feito o pássaro que voa para melhor enxergar seu ninho. O mundo sabe que João Donato é a música. Dentro dela, os dois vivem das harmonias. Uma relação de confiança que só faz crescer, porque um entende o ritmo do outro. Dias e mais dias em que não há por que discutirem a relação, pois têm certeza de que são uníssonos. E se, por acaso, acontece de pintar uma pulada de cerca, o outro pula também; e assim, pululando, seguem sincopando a vida.

Donato é um menino de 81 anos – um moço que faz o sério dar risada; um garoto que quebra a sisudez.

Para gravar Donato Elétrico, que teve João Evangelista como produtor, Donato trouxe para perto de si alguns jovens músicos que o veem como um mestre. E todos entraram no estúdio com a missão de criar músicas. Partindo de levadas e grooves “donatianos”, os temas instrumentais pululavam. Cercado de muitos teclados, João está mais feliz que macaco quando vê banana. Foi esta felicidade, alma gêmea da criatividade, que embalou os ensaios e a posterior gravação dos dez temas criados ao sabor da irreverência.

João Donato não tem medo de música – tem medo, isso sim, de encará-la como um aborrecido compromisso. Brincando com a música, divertindo-se com ela, um solo de bateria abre o CD com “Here’s JD” (João Donato). De cara salta aos olhos que o que tocam não é apenas música, mas sim música de João Donato, que faz misérias com seu Fender. Seguem-se os improvisos. Aí desponta a guitarra e, entre os sopros (cujo arranjo é de JD), o sax barítono. É quando sacamos que o mestre, reinando absoluto, seduziu seus pupilos. E todos pulsam na cadência jovial do menino João.

Lá vão eles em lúdicas sequências de cadências e sonoridades, buscando alcançar o som “simples” já patenteado por João Donato – o rei do improviso e dos desenhos rítmicos e melódicos. Suas mãos saltitam pelas teclas, que lhes vêm às mãos... simplesmente música de João Donato.

Com arranjo de sopros de Anderson Quevedo, “Combustão Espontânea” (JD) possui um título que parece resumir o clima que rolou no estúdio: era só JD apresentar um tema que o milagre da espontaneidade pintava. Quebrando o senso rítmico comum, Donato, municiado novamente pelo Fender, mais o Pro-One e o Fartisa, promove um arrastão sonoro. A sonoridade dos teclados, dos saxes tenor e barítono, das flautas e do trombone, embalados pela bateria e pelo baixo, cria uma concepção musical irresistível.

Daí deduz-se que João Donato brinca criando. É como se primeiro ele inventasse as células melódicas e depois as cantarolasse sobre harmonias aparentemente simples. O resultado não é uma música qualquer, mas, sim, música de João Donato.

 

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

PS. Embora tristes, saudamos sua eterna presença em nossos corações, Cauby. O Brasil sentirá sua falta. Descanse em paz.

 

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