Então, é NatalLuís Jorge Natal

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Publicação: Sexta-feira, 08/01/2016
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Nem pensar

 

     Zé Bronquinha é um chato, mas é meu amigo. Quando posso, paro para ouvi-lo. Sei quando está contrariado, normalmente por causa da política. De vez em quando, é somente uma dor de corno. O ano tinha apenas começado e todos no bar do Luisão perceberam a extrema irritação do Bronquinha. Mesmo chato, ele convivia no democrático espaço do bar, onde todas as dores eram compreendidas. Porém, desta vez a irritação dele superava o normal. Antes do sagrado campeonato internacional de porrinha, que classificaria o grande campeão para uma final que jamais existiria, a turma resolveu tentar solucionar a crise do José das Chagas, o Zé Bronquinha.

 

     Papo vem, papo vai, resolveram escalar o Ministro para sondar o que tanto atormentava a pequena figura. Sim, ele o Bronquinha, era baixinho, piauiense e com uma cabeça de tamanho descomunal. Talvez a causa da mágoa do pai desde o nascimento. Mas, retomando o rumo da prosa, o Ministro resolveu encarar a missão confiada. Tolerante, titular do cargo de ministro da eucaristia na prelazia da região, procurou o pequeno chato e perguntou se havia algum problema. Em princípio, desconfiado de um gesto generoso, simpático até, foi ríspido dizendo que estava tudo bem. Compreensivo, investido de uma missão que considerou evangelizadora, o Ministro insistiu. Bronquinha ainda titubeou, mas, convencido pela nobre proposta de beber uma ofertada pela boa alma, topou. Na realidade seria paga pela rapaziada. Depois de um argumento de tal magnitude, ele cedeu e, quase chorando, desabafou:

 

     - A vida amorosa nunca foi generosa comigo. Sou um fracasso com as mulheres. Só na minha cidade, lá no Piauí, consegui uma namorada. O romance durou apenas dois dias e ela me trocou por um colega vesgo. Porém, eu sou insistente, não desisto nunca. Outro dia, conheci uma morena espetacular. Nem acreditei quando aceitou o meu convite para assistir ao filme sobre a vida do meu líder, Lula. Olha que já tinha visto o filme quatro vezes no cinema, seis no cineclube do sindicato e dezesseis vezes sozinho em casa. A alegria era grande.

 

     Nesse momento um suspiro funcionou como inflexão e ele fez uma pausa. Foi a primeira tentativa que o ministro fez para consolá-lo. Quase bruto, Bronquinha disse:

 

     - Você não entendeu. Ela foi, viu o filme, concentrada até o final sem pedir intervalo. Eu achando o máximo. Pensei, definitivamente encontrei uma companheira. Quando acabou o filme, ela, simpática, perguntou o que eu fazia. Enchi o peito de orgulho e me preparei para narrar o meu ofício.

 

     Outro momento em que o relato foi interrompido, dessa vez por um choro doído, com lágrimas. O Ministro tentou um gesto compreensivo, para ser novamente rechaçado.

 

     - É difícil de entender, né? Orgulhoso, eu disse a ela que era funcionário de um projeto em defesa do governo luladilma. Deveria usar todos os recursos da Besta (blogosfera estatal) para propagar nosso ideário. E mostrei minha pauta. Lá estava escrito em tópicos: a culpa é de FHC; a mídia mente; impeachment é golpe; o Moro é Torquemada; a Polícia Federal é tucana; a operação lava-jato só existe porque a Dilma deixou; quem é contra o governo é fascista; a elite detesta ver pobre em aeroporto; a crise é invenção da Globo; Aécio não arruma a própria cama; e o helicoca? Ninguém fala?; compartilhar os expoentes nanicos da besta; a imprensa é golpista; é golpe, é golpe; a crise é invenção da Globo; isso é coisa da direita; o governo é de esquerda; ler e compartilhar textos do Emir Sader; é imoral, só quem é do PT é preso; 200 milhões deixaram a linha da pobreza; e por aí vai.

 

     Tomando fôlego, continuou:

 

      - Ela leu calada. Deu uma pausa, esperei um abraço. Estava embriagado de mim mesmo depois de revelar minha função diária. Fiquei aguardando a reação da companheira. Foi aí que pintou uma Maísa rápida, meu mundo caiu.

      Zé Bronquinha não teve como segurar outro choro compulsivo. Encostou a cabeça no ombro do Ministro e derramou lágrimas de esguicho (obrigado, Nelson). Apoplético, passou a gritar e questionar:

     - Sabe o que ela disse? Sabe o que ela disse? Não? Ela disse com todas as letras: Zé, você é um imbecil .

     E assim ele confessou que ficara mais uma vez sem trepar. Fuder, pelo visto, só com a inteligência alheia.

     Compreensivo, o Ministro prestou contas a rapaziada:

     - É muito difícil ser Enroladinho.

Nada mais foi dito, nem perguntado.

 

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